INÁCIO STRIEDER


strieder.jpg (18511 bytes)Prof. Inácio Strieder é professor adjunto do CFCH ( Centro de Filosofia e Ciências Humanas) da UFPE. A nível de graduação, é bacharel e tem licenciatura em Filosofia e é bacharel em Teologia. Fez Doutorado em Teologia Bíblica, na Universität Münster, Alemanha, sendo atualmente,o único teólogo no Nordeste a possuir este título.

Tem vários artigos de nível acadêmico publicados na imprensa, em revistas especializadas em Filosofia e Teologia em vários estados brasileiros e no exterior e também em revistas e jornais de caráter diverso. Tem várias citações e referências em obras nacionais e estrangeiras. Já participou de várias bancas examinadoras e já foi orientador de diversos projetos de pesquisa de dissertações de mestrado. Realiza conferências não apenas em várias partes do país, como também no exterior. Tem, além da tese de doutorado, vários livros publicados, sendo o primeiro deles "Deus se esconde na vida - temas para reflexão e orientação.


BOA VIAGEM – NOVA DIOCESE?

SETEMBRO - 1991


Se Boa Viagem se localizasse na Itália, há muito tempo seria diocese. Por que Boa Viagem , com o tamanho que tem, não poderia aspirar a Ter um bispo próprio, mesmo estando no Brasil?

Os católicos de Boa Viagem foram praticamente abandonados pelos bispos do Recife. Desde que Dom José Cardoso assumiu a arquidiocese pouquíssimas vezes visitou Boa Viagem. O mesmo se pode dizer dos bispos auxiliares. E quando o Sr. Arcebispo se ocupou com Boa Viagem foi muito mais para desarticular a pastoral da paróquia do que para incentivá-la.

Se Boa Viagem tivesse um bispo, certamente a evangelização cresceria em muito no nosso meio. Poderiam fazer parte desta nova diocese Jaboatão, Cabo, etc. Até seria trabalho demais para um bispo só.

Que tal articular-se para que Boa Viagem se torne uma nova diocese?


OS EXCOMUNGADOS DE BOA VIAGEM

FEVEREIRO - 1992


Praticamente, o discurso político Não possui palanque em Boa Viagem

O bairro de Boa Viagem reúne boa parcela dos pequenos burgueses do Recife, mas abriga também mais de uma dúzia de favelas. Este contraste social nem sempre é imediatamente visível àqueles que moram na orla marítima, pois as favelas são cada vez mais reprimidas para o fundo. Por isso, para que os pequenos burgueses não cresçam alienados da realidade do seu contexto, é preciso que exista uma instância crítica que os alerte e os incentive a superar a desumanidade que os envolve. Mas quem poderia ser esta instância crítica que advertisse os moradores de Boa Viagem da desumanidade social que os envolve como num manto?

Os colégios? Mas os maiores colégios de Boa Viagem são dirigidos justamente por pequenos burgueses que querem agradar aos outros pequenos burgueses que lhes confiam os filhos, e nada mais esperam do que um ensino adequado ao modelo alienante da sociedade de consumo, , longe das preocupações da maioria da população miserável do Recife e das favelas de Boa Viagem. Diante disto, não se pode esperar que as escolas de Boa Viagem exerçam a função de instância crítica necessária ao bairro. Os políticos? Praticamente o discurso político não possui palanque em Boa Viagem. O bairro de Boa Viagem não foi planejado para ter espaços abertos em que se analise seus problemas sociais. Não há auditórios e palcos que se prestem para isto. E os políticos, que aqui residem, usufruem das benesses do poder, pouco se importando com o contraste social escandaloso entre a miséria e a opulência, que se aninham no mesmo bairro. Quem então poderia exercer a instância crítica que desmascara a alienação do pequeno burguês de Boa Viagem, fazendo-o preocupar-se com as condições humanas de vida de toda a população do bairro?

As igrejas? Há várias denominações religiosas no bairro. Mas a maioria prega a seus fiéis uma alienação ainda maior do que aquela que vivem os pequenos burgueses sem religião.

Quando, há cerca de três anos, o Pe. Luiz Antônio de Oliveira foi nomeado vigário de Boa Viagem, convidou-me a partilhar sua preocupação com uma pregação cristã mais de acordo com a mensagem desalienizadora do Evangelho. Pois uma das exigências fundamentais da mensagem cristã é justamente a transformação do ser humano em pessoa livre, responsável e consciente. E isto somente se consegue através do diálogo, da meditação, do estudo, da análise do sentido da vida, dos ideais e da realidade humana. Para progredir neste sentido, fundamos um curso de teologia para leigos adultos. Este curso mexeu com a consciência entorpecida de muitos cristãos de boa vontade em Boa Viagem. Os professores eram pessoas engajadas na realidade, com conhecimento sólido da mensagem cristã.

O Conselho Paroquial cresceu. A maioria de seus componentes possuía titulação acadêmica, e estava alimentada com uma fé profunda no valor da mensagem cristã. E esta mensagem contempla o homem em suas necessidades materiais e espirituais. Entretanto o curso de teologia cresceu; o Conselho Paroquial se animou; e no jornal "A Pracinha" testemunhava o engajamento cada vez maior dos cristãos de Boa Viagem. Intensificavam-se as equipes, agindo em diversos setores engajados na promoção de todos os habitantes de Boa Viagem, criando um espírito comunitário e desalienando maior número de pequenos burgueses .

Todo este trabalho de formação de uma nova consciência, em bom número de cristãos de Boa Viagem, mal criara raízes, quando foi extirpado. Analogicamente , repetiu-se com esta formação cristã o que ocorreu com Cristo. Em seu tempo, Jesus de Nazaré foi condenado à morte porque intranquilizou a consciência de muitos que se julgavam religiosos, mas se haviam desviado do caminho da mensagem de salvação, pois a haviam reduzido a rituais formalísticos e jurídicos. Como Cristo, muitos cristãos engajados e ativos em Boa Viagem intranquilizaram autoridades instaladas e fiéis formalistas e juridicionistas . E nestas ocasiões, como já dizia Antônio Vieira, o poder fala mais alto do que a razão. Em conseqüência , o padre animador do engajamento dos leigos em Boa Viagem foi afastado ( ou se afastou, depende da leitura que se quiser fazer); os leigos foram desarticulados; proibiu-se aos professores de teologia lecionarem na comunidade, o curso de teologia fechou; o Conselho Paroquial foi dissolvido; o jornalzinho censurado. Tudo isto significa uma "excomunhão" ampla de paroquianos de Boa Viagem. "Excomunhão" justamente daqueles cristãos mais ativos e conscientes do bairro. Claro se olharmos pelo Direito Canônico, isto não significou uma "excomunhão" total pois ainda podem freqüentar os sacramentos , mas cassou-se-lhes a palavra na comunidade, e o vigário atual não os pode convidar para colaborarem nos serviços à comunidade. Isso, na prática, significa "excomunhão", isto é, a exclusão da comunidade. Felizmente esta exclusão não ocorreu por ação da maioria da comunidade, mas por alguém de fora da comunidade - caído do céu no meio dos cristãos do Recife, como naquela fábula antiga de Esopo, em que o deus Júpiter enviou às rãs insatisfeitas dum charco uma garça como rei. A garça, em vez de organizar o charco, começou a devorar as rãs. Naturalmente as rãs não poderiam estar satisfeitas com tal rei. Da mesma forma, os membros "excomungados" de Boa Viagem não podem estar satisfeitos com seu chefe que, em vez de animá-los para o engajamento, os exclui da ação comunitária baseada na fé, na mensagem de Cristo.

No meu entender, a Igreja Católica seria, no momento, a única instância crítica capaz de contribuir substancialmente na desalienação dos pequenos burgueses de Boa Viagem. Mas por causa de uma política eclesiástica escusa, mesquinha e anti-evangélica se omite e deixa de ser a instância conscientizadora que deveria ser segundo o Evangelho. E, o que é mais lamentável, até prefere "excomungar", ou se preferirem, neutralizar seus fiéis mais ativos, engajados e conscientes.


O CRISTIANISMO CARISMÁTICO

MAIO/JUNHO - 1992


       Os seguidores de Cristo sempre se entenderam como carismáticos. Isto é, agraciados pelos dons de Deus, pois "carisma" significa "dom". O dom fundamental no cristianismo é a orientação de toda a vida para Deus. Esta orientação para Deus deve gerar uma visão do mundo, em que todo ser humano é assumido como filho de Deus, e considerado como irmão e pessoa merecedora das mais altas considerações. Com isto o cristão situa a vida humana no âmbito de Deus, e busca proporcionar ao homem a dignidade que lhe é devida por causa de sua relação com o bem supremo, fonte de todos os dons. Assumir esta visão do mundo e compreensão do homem denomina-se de conversão. Esta situa tudo que existe e acontece no âmbito da providência de Deus. Sempre se ensinou no cristianismo que a constância nesta visão da realidade, e sua consequente prática de vida, é um dom de Deus, que se chama fé. A fé, portanto, exige compreensão, consciência, razão, prática de vida. A fé sem obras é morta. Palavras sem ação são canhão sem bala.

        Observando a história do cristianismo, verificamos que os cristãos, desde o início, procuraram ser fiéis aos seus dons de fé. Começaram a reunir-se em comunidades, a cuidar dos órfãos (menores abandonados), dos doentes, dos pobres, dos escravos, dos ignorantes. Surgiram assim orfanatos, hospitais, asilos, hospícios, irmandades, escolas, universidades...Disso se podem gloriar os cristãos, pois durante séculos os únicos profundamente preocupados com a dignidade do ser humano no Ocidente foram os cristãos. É claro, houve desvios de muitos que, embora se denominassem cristãos, não entenderam de forma adequada o Evangelho de Jesus Cristo. Mesmo assim, quem durante séculos, quase exclusivamente, fundou escolas, hospitais, asilos, orfanatos, universidades, no Ocidente, foram os cristãos, que procuraram ser fiéis aos carismas da fé.

       O verdadeiro cristianismo não se vive dentro de Igrejas, mas na vida real. A Igreja é apenas o lugar em que comunitariamente se assume o compromisso de viver o cristianismo na vida real, e se busca a força de Deus para tal. O resto é superstição, curandeirismo, charlatanismo, ilusão. O cristianismo é prática de vida no dia-a-dia dos acontecimentos. Uma prática de vida fruto da compreensão e orientação de tudo para Deus, que se manifesta em imagem na situação do homem concreto. Na medida em que o cristão se empenha para desvelar essa imagem de Deus entre os homens ele é um cristão carismático.

AVALIAÇÃO FILOSÓFICA DAS RELIGIÕES DO GRANDE RECIFE

AGOSTO/92


Quando lecionava disciplinas de conteúdo teológico aos estudantes da UNICAP, reparei na grande diversidade de opiniões sobre questões religiosas. Geralmente estas idéias religiosas andavam mescladas com superstições as mais diversas. Somente aqueles estudantes que provinham de famílias com tradição religiosa mais arraigada, ou haviam tido instrução religiosa, apresentavam reflexões com conceitos suficientemente adequados em relação aos assuntos religiosos.

Inicialmente propus-me a recolher informações sobre as superstições  do contexto existencial dos estudantes. Recolhi dezenas de relatos. Depois, de acordo com os programas que lecionava, solicitei aos estudantes que fizessem pesquisas sobre as manifestações religiosas no Grande Recife.

 No intercâmbio com tantas expressões religiosas, pude convencer-me experimentalmente do que a antropologia filosófica sempre ensinou: a expressão religiosa '` uma constante no meio dos homens. Como as doutrinas (ideologias) e os rituais religiosos são também expressões culturais e "gemidos" que brotam de situações sociais e históricas concretas do homem, propus-me fazer uma avaliação filosófica do conteúdo racional destas ideologias no Grande Recife. Para isto anotei um projeto de pesquisa, ao qual atualmente me dedico parcialmente.

Segundo a crítica de Marx, a religião é um "gemido da criatura oprimida". Sob certos aspectos concordo com esta expressão, pois nas atitudes religiosas, de fato, muitas vezes, se manifestam as misérias do homem, como a incerteza, a angústia, o desamparo e as opressões em todos os sentidos. Não concordo com o redusionismo marxiano, pois na verdadeira religiosidade também se manifestam as esperanças e os desejos humanos, e a prática religiosa adequada é o caminho mais sólido para uma autêntica  libertação das opressões. Isto é, por exemplo, o que oferece uma compreensão e uma prática adequada ao cristianismo. A verdadeira religiosidade cristã busca a libertação do homem de suas opressões e a superação das alienações.

Uma avaliação, como a que me propus fazer, contribuirá certamente para um maior conhecimento da situação do homem em nosso contexto: quais os problemas que o afligem e quais as esperanças que o animam.

 No caso de identificarmos ideologias religiosas manipuladoras, ou então de dignificação do ser humano, isto poderá servir para uma avaliação dos caminhos humanizadores ou desumanizadores em nosso meio. Por isto julgo importante esta avaliação filosófica das diferentes religiões em nosso meio, pois, sob muitos aspectos, refletem o sistema de vida do cidadão. A grande pergunta que se coloca é a identificação dos motivos porque tais doutrinas, muitas vezes exóticas e alienígenas, encontram tão fácil aceitação. Será que isto não é reflexo da situação social e educacional vexatória a que está reduzida a maioria do nosso povo? Ou será fruto da falta de crítica racional na interpretação do sentido da vida humana?


FORMAÇÃO SEMINARÍSTICA

SETEMBRO - 1992


Julgo sumamente importante que a Igreja Católica seja fiel à sua tradição, exigindo uma sólida formação filosófica e teológica de seus pastores. Quanto mais sábios, cultos, dedicados e homens de oração forem os nossos pastores tanto mais credibilidade terá a mensagem de Cristo no mundo de hoje. Afinal a razão é o dos mais preciosos com que Deus dotou o homem. E é pela razão que o homem identifica os sinais de Deus na natureza. Por isto, para que os seminaristas aprendam a ser os líderes espirituais que o mundo hoje necessita, é necessário que recebam uma equilibrada e sólida formação intelectual, espiritual e humanitária. Para isto, é evidente, sugere-se que seus mestres possuam a habilitação adequada, com diplomas acadêmicos, equilíbrio psicológico, experiência pedagógica e de orientação espiritual.

No Nordeste, especialmente, existe grande carência de pessoas qualificadas para serem formadores de seminaristas. A muito custo o ITER e outras Instituições haviam conseguido reunir equipes experientes e qualificadas para a formação seminarística. Mas quando  Sr. Arcebispo de Olinda e Recife conseguiu fechar estes centros de formação e iniciou o Seminário de Olinda, rejeitou a maioria destes mestres habilitados. Grande parte do professorado do novo seminário não tem nenhuma habilitação, nem experiência, para a formação de seminaristas. Vários deles, inclusive deixam a desejar em seu equilíbrio psicológico. Isto faz com que haja uma grande insatisfação entre os seminaristas. A tal ponto que nem é de estranhar que, há poucas semanas, fôssemos surpreendidos com a notícia do suicídio cruel, pelo fogo, do seminarista JOSÉ ROBERTO FIRMINO, da Diocese de Nazaré da Mata e aluno do Seminário de Olinda. Ninguém nega que, pela tradição da Igreja, o bispo ordena quem ele quiser e rejeita para o sacerdócio quem ele quiser. Mas, por que um seminarista, durante 10 anos fica sob a tutela do Bispo e somente ao final lhe é dito que não vai ser ordenado? Será que isto não é falta de acompanhamento? Assim, de repente, esse jovem descobre que durante tantos anos estudou e agora fará o quê, quando seus estudos não têm nenhuma validade civil? Por que os bispos não cuidam que seus seminaristas obtenham diplomas universitários? Ou será que os padres devem permanecer padres só porque não sabem fazer outra coisa na vida?

Os Bispos do Brasil, ou mesmo o Núncio Apostólico, para o bem da Igreja no Nordeste, deveriam enviar um Visitador ao Seminário de Olinda para avaliar o nível de estudos e o ambiente psicológico que ali reina. Se constatasse, e é fácil constatar, que as exigências da Igreja Universal para a formação seminarística ali não existem, até deveriam fechar este seminário, pois é inadmissível que os nossos futuros orientadores espirituais aprendam uma teologia que os lega à morte (ao suicídio), em vez de aprenderem a teologia que leva à vida.


A ERA "OPUS DEI"

JANEIRO - 1993


No desenrolar histórico do cristianismo sucedem-se movimentos que procuram encarnar a mensagem de Cristo. Na maioria dos casos, estes movimentos, que no início se apresentam com convicção de que retratam de forma pura a mensagem de Cristo, acabam revelando seus condicionamentos históricos e ideológicos. Muitos destes movimentos assumem por algum tempo, a liderança na Igreja, mas depois fenecem, ou se perpetuam de forma mais moderada. O cristianismo tem tantas facetas quantos o próprio ser humano. Por isto há nele lugar para múltiplas propostas de vida e de pensamento. Neste pode-se mencionar alguns movimentos com destaque na história da Igreja, como:o agostinianismo, o platonismo, , as cruzadas o franciscanismo, o inquisitorialismo, o jesuitismo, a expansão missionária, a contra-reforma, o pietismo, a mariologia, etc. Muitos destes movimentos não se excluem entre si, mas se complementam.

Neste nosso século se impôs um movimento de liberalização e de desclericalização na Igreja , com a valorização dos leigos, da renovação e da preocupação com a justiça social, buscando a dignificação do ser humano em todas as suas dimensões. Muitos desejavam o verdadeiro cristianismo universal (católico), e não um cristianismo fragmentado por devoções particulares excludentes. Estas várias aspirações culminaram no Concílio Vaticano II. Este Concílio privilegiou a renovação na Igreja, o que, por sua vez, estimulou o movimento da Teologia da Libertação. Esta Teologia reativou a ação e a doutrina dos grandes profetas da tradição judaico-cristã. Os profetas sempre intranquilizaram as consciências dos acomodados e dos fariseus. Por isto, muitos deles foram mortos. Inclusive o próprio Jesus Cristo.


OS KARISMAS E O KARMA

FEVEREIRO/MARÇO/ABRIL - 1993


A força do movimento carismático se alimenta nos dons do Espírito Santo. E, na medida em que os "carismáticos" procuram levar uma vida fiel a estes dons, a sua espiritualidade crescerá de acordo com a mensagem de Cristo.

A memória da vida das primeiras comunidades cristãs foi o que fez crescer fervor de uma vida repleta do Espírito Santo. O crescimento do movimento carismático na Igreja Católica não se deve a um eventual marketing de Roma, ou de algum bispo ou padre, para se opor à propagação das seitas. Isto, inclusive, seria um absurdo, pois o verdadeiro cristão não se precisa opor a nada, ele construirá a sua identidade, buscando ser fiel à mensagem de Cristo. Por isto, achamos muito estranhas as declarações do Padre Coordenador do Movimento Carismático da Arquidiocese de Olinda e Recife, feitas a um dos jornais diários do Recife, em 31/01/93, afirmando que o movimento carismático quer se opor ao avanço das seitas, e que ele (coordenador) usa na animação carismática o método de libertação do karma negativo da Seicho-no-iê.

Estas declarações, se verdadeiras, são preocupantes e uma verdadeira aberração teológica. "Karma" é um conceito reencarnacionista e significa na seicho-no-iê o conjunto de energias acumuladas em gerações passadas. Portanto, o karma não tem nada a ver com os Karismas do Espírito Santo. É muito importante que os próprios carismáticos católicos estejam alertas para eventuais deturpações teológicas em seu meio. Acho também importante que os teólogos da Arquidiocese verifiquem se a teologia do Coordenador da carismática é cristã ou reencarcionista.

Penso ser justa a nossa preocupação, pois queremos um movimento carismático que realmente busque os dons do Espírito Santo e contribua para a libertação das pessoas no sentido cristão, e lhes dê ânimo para o crescimento no compromisso com Cristo. Isto também fará com que em seus cultos e animações permaneçam plenamente conscientes como São Paulo quer quando manda que o culto cristão seja racional e um oferecimento da vida, no dia-a-dia, a Deus. Por isto, o movimento carismático, para o próprio bem, deve proteger-se contra toda tentativa de obscurecimento da consciência, de transes, fanatismos, manipulações da racionalidade ou superexaltação dos sentimentos. Por isto, deve também proteger-se contra métodos incompatíveis com a sã e tradicional teologia da Igreja. Dali a necessidade de repetir o uso de métodos reencarcionistas na animação carismática, pois isto não é cristão. Karismas, sim; karma, não!


O PÓS-QUINTO CENTENÁRIO

JULHO - 1993


No decorrer de 1992 foram muitas as referências aos 500 anos da América. A Igreja discutiu principalmente os 500 anos de evangelização. Em Sto. Domingo os representantes dos bispos latino-americanos enunciaram em outubro p.p. os princípios que deverão nortear, daqui para a frente, uma nova evangelização.

A análise histórica da primeira evangelização nos confronta com uma série de paradoxos. A extrema deturpação do Evangelho, a que chegaram os cristãos deste período, está muito bem expressa naquela frase de um índio torturado pelos espanhóis, quando clamou: "Nós preferimos suportar as torturas do inferno, a Ter que conviver com os cristãos no céu".

 Diante dos desvios evangélicos, a Igreja neste ano pediu aos cristãos que fizessem penitência pelo passado e pedissem desculpas aos índios e africanos que, durante séculos, aqui viveram uma história trágica. Ainda hoje as estruturas sociais continuam injustas e desumanas para com os índios e os descendentes de escravos. Seria preciso que os cristãos latino-americanos e os europeus se conscientizassem disto e contribuíssem para indenização aos injustiçados do passado.

Mas a recordação dos 500 anos da primeira evangelização não pode limitar-se a lamentações próprias de Sexta-feira Santa. É verdade que foram cristãos aqueles que assassinaram aos milhares, massacrando vilmente as altas culturas do Continente: mas foram também cristãos os que defenderam os direitos dos índios e que procuraram iluminar as culturas indígenas com os princípios do Evangelho.

O Evangelho, a Palavra de Deus, foi trazida ao Continente Latino-americano pelos cristãos. Esta Palavra rapidamente desenvolveu  dinâmica própria, tornando-se uma instância crítica diante das opressões, e orientando os subjugados para o Deus da liberdade e da justiça. O Deus que constantemente é transmitido pelos homens, mas que não se deixa prender por homens ou por instituições. Por isto a história da América Latina é incompreensível sem a presença de homens notáveis e dos cristãos engajados, que estiveram animados pela força do Evangelho no decorrer destes 500 anos de história. É importante saber que os movimentos de emancipação dos países latino-americanos das potências colonizadoras foram amplamente apoiados pelo "baixo clero". E em nosso tempo, as rupturas sociais necessárias, a linguagem da libertação, a sensibilização pelos problemas dos miseráveis, a opção preferencial pelos pobres e descartados pelo sistema capitalista e a crítica histórica provêm, em grande parte, de cristãos, animados pela força do Evangelho.

A teologia nos ensina que a Palavra de Deus não vem aos homens de forma pura. Ela chega até nós "encarnada", como aconteceu exemplarmente com a encarnação de Cristo. Ela não se confunde com o que é terreno, mas também não se isola do humano. Somente a história revela o que é realmente divino  e absoluto, e o que é humano e historicamente relativo. Além disto, junta-se ao que é historicamente condicionado na Palavra de Deus a possibilidade de sua adulteração.

 Na história da América Latina a Palavra de Deus estava justamente presa às forças culturais e lingüísticas da Espanha e Portugal. Às vezes foi de tal forma deturpada que mal permanecia reconhecível. Foi, inclusive, manipulada como instrumento de opressão e desumanização. Mas esta Palavra, em muitos casos, foi também em nosso Continente o início de uma nova vida, quebrando injustiças e ideologias perversas.

Em 12 de outubro, data da vinda dos europeus à América, completaram-se os 500 anos da descoberta. Agora já estamos no "pós-quinto centenário". O 3o Encontro dos Bispos Latino-Americanos em Santo Domingo situou os cristãos deste continente ante um novo caminho, uma nova evangelização. Nesta Segunda evangelização se espera que a Palavra eterna de Deus fique isenta das estruturas de opressão e seja instrumento da verdadeira libertação. Por isto, muito mais do que as "celebrações" dos 500 anos passados nos devem alegrar e inspirar esperanças  nos caminhos da nova evangelização, preconizados pelos bispos em Santo Domingo. Vale a pena estudar os documentos desta conferência da cúpula da Igreja latino-americana.


CRIANÇAS NA RUA – CRIANÇAS SEM FAMÍLIA

AGOSTO - 93


Em vez de falar de "crianças de rua" seria muito mais significativo falar em "crianças sem famílias". O problema não se resolve deixando na rua ou recolhendo as crianças que perambulam por aí. A sociedade brasileira deixará de ser hipócrita, quanto ao problema ao problema das crianças desamparadas, somente quando resolver enfrentar o problema dos adultos desamparados. Quem produz estas crianças? Certamente os adultos. No Brasil nunca houve uma política e uma educação que orientassem as leis e os hábitos no sentido da solidificação da estrutura familiar. O homem não é um ser que se possa permitir um sexo sem limites. O filho que nasce, para chegar a ser pessoa útil à sociedade, necessita de um ambiente familiar estável que possa acolher com carinho e com responsabilidade. E isto não será possível onde os pais apenas se ajuntam para procriar. É preciso que a sociedade incentive, proteja e possibilite legalmente a estabilidade familiar. Aqueles que se propõem ser pais necessitam de seu país formação e condições econômicas para poderem assumir responsavelmente a sua prole e mediar-lhe a cidadania a que tem direito. O cidadão que coloca um filho no mundo deve poder ser responsável por ele. Se esta responsabilidade não existe, quem fica responsável por ele é a sociedade. E quem deve fazer as leis que garantem o bem estar de todos os cidadãos são os políticos. E onde estão as leis no Brasil que fortificam, possibilitam e garantem a solidez familiar aos milhões de brasileiros na miséria absoluta? Batalha-se neste país por leis de divórcio, por isenção penal do adultério, por pena de morte, mas onde estão as leis que garantem ao cidadão as condições mínimas para uma vida familiar digna?

No meu entender, uma sociedade que deixa crianças na rua, desamparadas, desprotegidas e sujeitas a abusos animalescos deve ser denunciada e condenada como um todo. Lugar de criança é no lar e na escola. Depois de massacres de menores, é pura hipocrisia de políticos e religiosos se escandalizarem e lamentarem o ocorrido. Será que antes do "massacre da Candelária" ninguém viu as crianças deitadas por aí? E por que não se abria as portas da igreja para que elas dormissem lá dentro, num gesto profético e denunciador? Isto teria sido muito mais cristão do que depois, rezar "missa de sétimo dia". Não acham?


FORMAÇÃO DE PEQUENOS GRUPOS DE VIDA CRISTÃ

OUT/NOV/DEZ- 93 E JAN/94


Nos últimos anos verificamos um fenômeno interessante: sempre mais cristãos reúnem-se em pequenos grupos, tanto para refletirem e rezarem juntos, como para viverem em comum. Estes grupos são levados pelo desejo de levarem um vida de acordo com o Evangelho de Jesus Cristo.

De uma parte, o fenômeno dos pequenos grupos qualifica-se dentro do espírito de nossa época, que novamente descobriu o valor humano de tais grupamentos. Por outro lado, os pequenos grupos são uma reação contra as grandes sociedades e instituições onde os participantes se desconhecem e estão reduzidos a números. Pequenos grupos podem também surgir como defesa contra uma coletivização sempre maior na sociedade. Como tais, a reunião em pequenos grupos, para reflexão ou vida comunitária, são um fenômeno de nossa época. Se olharmos, no entanto, para os grupos de vida cristã, veremos que eles não se explicam apenas a partir da realidade social de nossa época. Os grupos cristãos buscam a sua orientação e dinâmica no Evangelho de Jesus Cristo, convictos de que vida cristã em comunidade, orientada para as necessidades do próximo. Tais grupos têm por finalidade tornar frutífero em seu meio o essencial do cristianismo.

Os diferentes agrupamentos cristãos surgem, em geral, motivados por um problema concreto da sociedade. Muitos destes grupos, após terem realizado o objetivo proposto, se desfazem. Outros se institucionalizam atuando em dioceses, paróquias, escolas, etc... O princípio que orienta tais grupos é a busca de uma vida mais de acordo com a palavra de Deus e as exigências de nosso tempo. Muitos casais, sacerdotes e estudantes encontram-se , freqüentemente com essa finalidade. Claro, nos pequenos grupos também surgem dificuldades e crises. Estas tensões, podem ser valioso auxílio para o amadurecimento do grupo. Por isso, a consistência de muitos dos pequenos grupos de vida cristã depende da constante revisão de vida, da busca de novas perspectivas. Do esclarecimento dos deferentes pontos de vista e do desejo constante de reiniciar.

A experiência já mostrou que pequenos grupo, quando animados pelo espírito de Cristo, são criadores de nova vitalidade para a vida cristã. Assim como Cristo se interessou pela suas incertezas, angústias e opressões, superando fronteiras religiosas e sociais, os pequenos grupos de vida cristã estão conscientes de que a mensagem de Cristo, também para a sociedade atual continua uma Boa Nova.

Os diferentes grupos cristãos reconhecem na forma de viverem e no seu engajamento a possibilidade de um novo encontro com o Deus de Jesus Cristo; uma nova possibilidade de falar com este Deus, evitando fazer dele um ídolo que justifica a violência e a manipulação de supostos princípios de ordem, que conserva a maioria dos homens na miséria e na ignorância.

Vida é presente de Deus. Ela só pode ser vivida plenamente em comunidade.


A HIPOCRISIA DA PENA DE MORTE NO BRASIL

FEVEREIRO/MARÇO - 1994


Se a sociedade brasileira representada por suas lideranças políticas, tivesse feito tudo, no decorrer da história, para convencionar uma sociedade ética, e os crimes, apesar disto, não cedessem, até se poderia admitir uma discussão sobre a conveniência ou não da pena de morte. Mas, se isto fosse o caso, estou certo, ninguém levantaria este problema, pois, na medida em que os povos se humanizam, excluem a pena de morte de suas constituições. No Brasil, com uma organização social rudimentar e impregnada das injustiças sociais históricas mais absurdas, como então pensar em pena de morte? É uma vergonhosa hipocrisia que se proponha um plebiscito para aprovar a pena de morte no Brasil. Os políticos, preocupados com esta questão, certamente estariam merecendo melhor o seu salário se se preocupassem mais em superar, na estrutura social brasileira, as monstruosidades nela existentes desencadeando um verdadeiro processo civilizatório.

Quando as condições mínimas de uma vida humana digna não são dadas, como avaliar eticamente o comportamento do homem? No meu entender, para não sermos hipócritas, a pena de morte no Brasil somente poderia entrar em debate quando houvesse educação, trabalho, moradia, justiça, alimentação e saúde para todos os cidadãos. E quando isto ocorresse certamente não precisaríamos mais discutir a pena de morte, pois os crimes desceriam a patamar absorvível. Se as convenções sociais forem encaminhadas no sentido de permitir que o Brasil seja um país humanizado não precisaremos da pena de morte.

Se, porém, não acontecer a devida correção das desumanidades que nos assolam neste momento histórico, institucionalizar a pena de morte nada mais será do que incentivar ainda mais os esquadrões da morte, os homicídios e a violência institucionalizada. Optemos por construir uma sociedade ética e não precisaremos da pena de morte no Brasil.


AS EXIGÊNCIAS ÉTICAS DE UMA CAMPANHA POLÍTICA

SETEMBRO - 1994


Mais uma vez os partidos estão em campanha política. É importantíssimo para a democracia, que cada cidadão saiba quem é seu candidato. Se ele é um político confiável, honesto e interessado no bem comum. Os fatos recentes de cassação do Presidente Color e de Deputados Federais, nos mostram até que ponto os políticos se deixam corromper. Não basta que o candidato tenha muito dinheiro e ganhe as eleições. É preciso que ele seja uma pessoa com princípios e não busque apenas vantagens pessoais na conquista do poder.

Na velha república os detentores do poder lançaram palavras de ordem tipicamente maquiavélicas, como "em política é feio perder", "cometam pecado, mas ganhem as eleições".

O que era isto senão a sacralização do princípio maquiavélico de que "os fins justificam os meios"? Outros seguiam o conselho de Voltaire no século XVI: "menti, menti, que alguma coisa fica". Com estes princípios que corriam nas cúpulas políticas, o povo ea ludibriado. Diante disto, pergunto-me na democracia perder com honra é feio? Não é justamente feio, abominável ganhar as eleições com fraude, corrupção e mentira? Deixar-se comprar, não é isto renunciar à própria dignidade?

E o que nos revela um lance de olhos sobre a atual campanha eleitoral? Qual é o seu nível ético? Comícios e campanhas eleitorais são, em princípio, ótimas oportunidades para a conscientização popular. Muitos "podres" sobem à tona. Já o fato de termos campanha política e eleições deve ser visto como positivo, pois demonstra que não estamos sob o regime de força.

Como cristão, é importante informar-se sobre a qualidade dos candidatos e o nível de sua campanha. Há candidatos bons e menos bons. Alguns prometem emprego para todo mundo, entram nas favelas e se comovem com a miséria do povo. Verifiquemos se isto é apenas demagogia ou atitude séria. O voto do cristão deve ser consciente e responsável. Vote você também como cristão.


UM BISPO EXEMPLAR - DOM FREI CAETANO BRANDÃO

ABRIL - 1995


Já a sabedoria antiga ensina que o homem necessita de bons exemplos para ele mesmo ter a força de se conservar no caminho do bem. Neste sentido, a história do cristianismo é riquíssima em pessoas exemplares, que fizeram do Evangelho, a luz de suas vidas. Pena é que, muitas vezes, desconhecemos estas pessoas exemplares. Quem conhece, por exemplo, o venerável Dom Caetano Brandão? Eu mesmo desconhecia este bispo exemplar, até há poucos anos, quando recebi três livros raros, impressos em 1818 em Lisboa, que narram a biografia e os ensinamentos de D. Caetano.

Dom Caetano Brandão foi bispo do Pará, de 1782 a 1789. Depois disto, foi nomeado arcebispo de Braga/Portugal, onde veio a falecer em 1805, com fama de santidade. Ao chegar ao Pará, D. Caetano se confrontou com muita ignorância e desordem nos costumes. Estava convencido que tudo isto poderia ser parcialmente remediado pela instrução, tanto do clero, quanto dos leigos. Por isto, imediatamente, providenciou em oferecer ao clero, condições de se reciclar com estudo e encontros para debater questões teológicas e pastorais. Preocupou-se com a pobreza do clero. Era pastor e amigo de todos os padres. A ninguém excluiu. Procurou formar os seminaristas, convivendo com eles e dando-lhes os melhores professores disponíveis. Acudiu à pobreza e aos enfermos, com esmolas espirituais e corporais. Em sua casa, não havia sedas, nem pratas, nem adornos ou outras ostentações de vaidade. Os castiçais de sua igreja eram de estanho, os talheres de latão, e o que poupava, vivendo desta maneira simples, dava aos pobres. Visitava os enfermos e observava se eram tratados com caridade e asseio. A sua casa estava aberta para receber a todos que o procuravam. E muitos acorriam a ele, sem medo de repressão policial. Viajava pelo interior, visitando as aldeias mais pobres e distantes, crismando, confessando e consolando os fiéis. Em toda a parte a sua presença era motivo de festa. Por isto, ao ser transferido para Braga, os fiéis sentiram imensamente a perda de seu pastor, mas ao mesmo tempo, se alegraram porque tinham tido a honra de ter um bispo digno de ser promovido a um arcebispado tão importante, como o de Braga.

D. Caetano foi um bispo que, certamente, também hoje, todos desejariam como seu Pastor. Na Arquidiocese de Olinda e Recife, estamos ansiosos, há muitos anos, que venha um outro D. Caetano Brandão. Venerável D. Caetano, olhai por nós !


AS IDADES DO MUNDO

SETEMBRO - 1995


Pelos documentos históricos constatamos que a humanidade, desde tempos remotos, se preocupou com a divisão do tempo. Na nossa cultura falamos em passado, presente e futuro; dividimos o suceder dos dias em semanas, meses, anos, décadas, milênios. Toda esta matemática é puramente convencional e muda de acordo com as culturas. No calendário litúrgico, por exemplo, a Igreja fixa a Páscoa a partir dos meses lunares e não solares. A divisão do tempo permite que situemos os fatos históricos e os organizemos na nossa mente de uma forma sistemática. Esta organização e interpretação dos fatos varia na história profana e na história sagrada.

Na interpretação sacra, diversos autores dividem a história do mundo em "Idades". Já na literatura pagã, encontramos referências a "idades de ouro" e "idades de barro"; épocas de "vacas gordas" e outras de "vacas magras". Lucas em seu Evangelho, distribui a história em "Idade do Pai"(AT), "Idade do Filho" (vida terrena de Jesus); "Idade do Espírito Santo"( o tempo da Igreja). Outros escritores religiosos dividiram a história de acordo com certas etapas retiradas das narrações bíblicas. Esta maneira de dividir o tempo deu origem a uma representação imaginária de que a história, desde o início do mundo até o seu fim, transcorre em seis "Idades", da seguinte forma:

1. A primeira Idade do Mundo começa em Adão e vai até o fim do Dilúvio, com uma duração de 1656 anos.

2. A segunda Idade, começa com o fim do Dilúvio e vai até a saída dos hebreus do Egito, com uma duração de 887 anos.

3. A terceira Idade começa com a saída dos Hebreus do Egito e vai até o 4º ano do Reinado de Salomão, quando se começou a construir o Templo, com duração de 480 anos.

4. A quarta Idade começa no 5º ano do Reinado de Salomão e termina com a destruição do Templo, ou com o fim do cativeiro dos judeus na Babilônia, com duração de 452 anos.

5. A quinta Idade começou com fim do cativeiro dos judeus na Babilônia, ou início da Monarquia Persa, e vai até a encarnação do Messias, com duração de 525 anos

6. A sexta Idade começa com a 1º vinda de Jesus e vai até a sua 2º vinda, com o julgamento dos vivos e dos mortos, cujo dia ninguém sabe.

7. A sétima Idade já não começaria mais no mundo, mas no céu. Iria desde o Juízo final e se prolongaria por toda a eternidade sem fim.

Em função destas "Idades do Mundo", algumas observações e conseqüências. Evidentemente, esta divisão da história é significativa para quem tem fé, mas não tem valor científico. Mas, quanto ao seu significado, ela nos ensina algo fundamental e induz os cristãos a um realismo de vida. Cindo Idades já passaram. De nada adianta se preocupar se foram ou não foram como a imaginamos. A nós é dado viver na "Sexta Idade". E, com a graça de Deus, nos foi dada uma parcela de responsabilidade para construir esta Idade, embora não tenhamos o poder de determinar a sua duração. Deus é o dono de nossa história.

Num sentido de fé e realismo, nesta sexta Idade, todos os dias têm a mesma densidade e valor espiritual; cada dia é como se fosse o primeiro e ao mesmo tempo o último. Por isto pode-se afirmar, sem medo de equívoco, que a cada dia e a cada instante do dia começa um novo milênio. Isto ensina aos cristãos de que são vãs as expectativas de que grandes coisas vão acontecer na passagem de um milênio para o outro. Nada de "Novas Eras"; de um próximo século "mais espiritual"; de temores por "três dias escuros"; fim de mundo; de eras de abundância, de paz, sem crimes ... A passagem do tempo sempre estimulou a fantasia dos homens. Muitas vezes de forma mórbida, utópica, mas também de forma criativa e esperançosa. A nossa Idade real é a Idade de nossas vidas individuais: 30, 50, 80 ou 100 anos. Este é o tempo que Deus nos dá para cuidarmos de nossa salvação, isto é, de nossa saúde espiritual. As outras Idades são fantasia. Mas a curta "idade" de nossas vidas é o tempo perante o qual somos responsáveis e que é extremamente significativo para nossas existências.


UM MONGE ANGUSTIADO

NOVEMBRO - 1995


Conta a lenda que um santo monge andava muito escandalizado porque o arcebispo de sua cidade chamava a polícia para evitar que os fiéis se aproximassem de seu palácio; além disto, expulsava padres, despejava senhoras idosas, perse-guia padres casados, fechava seminários, extinguia setores pastorais, proibia leigos engajados de atuarem em suas pa-róquias, se desentendia com seus bispos auxiliares, derruba-va edifícios históricos da diocese. Certo dia, a angústia do monge cresceu tanto, que se decidiu a ir ao palácio episcopal e pedir explicações ao arcebispo. Reza a lenda , que o arcebispo teria tentado tranqüilizar o monge, lembrando-lhe que além de arcebispo, ele era também o administrador da diocese. Portanto, apenas estava cumprindo o seu dever. Mas o monge não teria se dado por satisfeito, dirigindo-se, na sua angústia, ao arcebispo com a pergunta: "Senhor arcebispo, e se o Administrador morresse de repente, e fosse para o inferno, para onde V. Excelência pensa que iria o Arcebispo?"

Lenda inspirada na obra do : Padre Manoel Bernardes, v.4, Lisboa, Of. Joseph A. da Sylva, 1726, p.38)


POR UMA POLÍTICA HUMANITÁRIA

MARÇO - 1996


Num sentido próprio, a política é a arte de organizar a cidade. Em outras palavras, a arte de organizar a vida dos cidadãos para que suas características de seres humanos possam manifestar-se e desenvolver-se de forma digna e respeitosa em todos os níveis de relacionamento mútuo. Os políticos legitimam-se, portanto, apenas quando trabalham em função da dignificação do ser humano. São colocados à frente da condução da sociedade para fazer "leis" e executarem projetos que facilitem e garantam aos cidadãos o acesso à moradia, à saúde,à alimentação, à educação, à segurança, à organização familiar etc. Enfocando a nossa realidade política , e os nossos políticos, sob esta ótica de valores, podemos perguntar: eles prestam e se legitimam cumprindo com sua obrigação? Francamente, sob meu ponto de vista, são poucos os que se salvam. A maioria mereceria nota zero. Pois, onde estão as leis, e seu cumprimento, os projetos que garantem, comida, moradia, saúde, educação, segurança, trabalho, etc. a todos os cidadãos?

É difícil? não tem dinheiro?

Que se cobrem mais impostos dos que tem, que se evite a corrupção, a exploração, que se promova a distribuição de renda ... A História, certamente, saberá julgar a monstruosidade desumana da política desastrosa do Brasil de hoje. E os nossos engomados engravatados políticos, em sua maioria, terão o seu lugar de vergonha na lista dos incompetentes. A Historia não perdoará sua conivência com as monstruosidades desumanas de sua incompetência política. Que a Campanha da Fraternidade não fique apenas na euforia dos belos cantos da liturgia quaresmal, mas consiga mostrar aos nossos políticos, e a quem o pretende ser, o espelho da realidade social, para que veja, o quanto deve ser feito para que haja justiça e fraternidade.


CASAMENTO, ALIANÇA DE AMOR

ABRIL - 1996


Causou perplexidade entre os católicos, e o povo brasileiro em geral, a atitude de um bispo de Minas Gerais, não autorizando o casamento entre um tetraplégico e uma viúva com dois filhos. Estranheza causou também, o pronunciamento do Cardeal da Bahia, Dom Lucas Moreira Neves, Presidente da CNBB, fundamentando no Direito Canônico, o seu apoio ao colega de Minas. Em artigo ao Diário de Pernambuco ( 17.4.96), Dom Lucas afirma que Jesus Cristo assumiu como matéria do Sacramentno do Matrimônio o dom recíproco do próprio corpo que "envolve, como parte integrante, a sexualidade materializada na união física ou carnal, aberta à vida ...". Por isto, no caso de Minas, como não haveria este amor carnal, pela impotência daquele tetraplégico, o casamento seria nulo e inválido, pois o amor espiritual e carnal entre um homem e uma mulher seriam o sinal do amor de Deus para com a humanidade ... E o sacramento seria, justamente, este sinal da graça de Deus. Em outras palavras, no casamento Deus só manifesta seu sinal da graça (o sacramento) se houver relação sexual. Ate’deve ser certo que o cânon 1084 do Direito Canônico seja interpretado assim. Agora, que se possa atribuir a Jesus Cristo uma posição destas, é pouco provável. Se assim fosse, Jesus deveria ter declarado nulo o casamento entre sua mãe Maria e seu pai adotivo José. Pois, segundo o ensinamento da Igreja, José e Maria não se casaram para ter relações sexuais, nem para ter filhos, pois Maria permaneceu virgem. Como então a Igreja poderia colocar a Sagrada Família como modelo de família cristã, se nela não aconteceu a matéria do matrimônio cristão, a relação sexual? Além disto, quando Deus criou a mulher, a Bíblia não diz que Deus a criou para ter relações sexuais, mas para que ela fosse companheira do homem, e assim o homem não se perdesse em sua solidão. Objetivamente, a relação sexual, por si, não é nenhuma cura para a solidão. A cura é o amor.

Diante disto, ouso afirmar que o povo cristão, que se indignou com a atitude do Bispo de Minas, que preferiu orientar-se pelo Direito Canônico e não pela Misericórdia de Deus, nesta questão, certamente, expressa melhor a compreensão da doutrina cristã do que alguns de seus bispos, cardeais , e do Direito Canônico. Jesus, certamente, entendeu o casamento como uma aliança de amor, muito mais profunda e duradoura do que a possibilidade de excitação da genitália para fins procriativos.


ANCHIETA E VIEIRA

JANEIRO/FEVEREIRO - 1997


Dois fatos, certamente, seriam dignos de recordação e reavaliação neste ano: o 4º centenário da morte de Anchieta e o 3º centenário da morte de Vieira. As virtudes e os escritos destes dois patriarcas das origens de nossa história civilizada mereceriam ser mencionados por políticos, e discutidos nos colégios e nas universidades. Isto, certamente, contribuiria muito mais para criar ânimo de cidadania no povo, do que os discursos falaciosos e vazios de muitos de nossos "pais da pátria" de hoje.

Anchieta que apaziguou tamoios e portugueses; que fundou colégios e cidades; que civilizou antropófagos e criminosos portugueses desterrados ao Brasil; que assessorou governadores, mas que, ao final, se retirou para aldeias indígenas para morrer entre os pobres ... Vieira, o maior orador português/brasileiro de todos os tempos, capaz de discursar nas cortes européias, e de dar catequese aos mais desenformados silvícolas; defensor inveterado da liberdade dos indígenas; intranquilizador da consciência de governadores injustos e opressores; perseguido pelos inquisitores ...

Naturalmente, alguém poderia objetar que nos devemos preocupar com os vivos e não com os mortos. É verdade. No entanto, quem está mais vivo, através de suas obras e escritos, do que Anchieta e Vieira? O triste é que damos mais importância a certos "vivos" mortos, do que a certos "mortos" vivos. No sermão sobre Santo Inácio, Vieira diz: "o corpo retrata-se com o pincel, a alma com a pena". E aonde se retrataram melhor Anchieta e Vieira do que em seus escritos? E nestes escritos eles estão vivos, pregando hoje como ontem valores e virtudes que, em todos os tempos, serão a base dos valores e virtudes que podem e devem fundamentar a construção de uma sociedade civilizada, justa e digna no Brasil.

De fato, existem ainda hoje, por toda parte, preconceitos pombalinos contra Anchieta e Vieira, bem como contra os jesuítas em geral. No ano do 4º e 3º centenários destes patriarcas de nossas raízes nacionais, teríamos uma ótima oportunidade para revermos estes preconceitos. Ainda há pouco um professor universitário argumentou que o Brasil estava tão atrasado por causa da longa presença jesuítica durante o Brasil colônia. Perguntei-lhe o que já havia lido Anchieta e de Vieira, bem como de outros escritos jesuíticos daqueles tempos. Respondeu-me: "Não li nada, mas ouvi dizer". Suma ignorância de um acadêmico, que nem sabe examinar criticamente os seus preconceitos.

Para nos reencontrarmos com os inícios de nossa história nacional, e nos confrontarmos com valores e atitudes fundantes de construção duma sociedade civilizada e, portanto, humanizada, nada melhor do que pesquisas, leituras, debates a partir da "alma" de Anchieta e Vieira. Que tal leituras, declamações, teatros, debates de história e política a partir dos escritos de Anchieta e de Vieira neste ano do 4º e 3º centenários de suas mortes?

Tais atividades educacionais, certamente, contribuiriam mais eficazmente para a busca de nossa cidadania do que os desmandos de uma política de vaidades e neo-liberalismos, sem rumos éticos, que nos assola todos os dias.


O PROTAGONISMO DOS LEIGOS E A DESRAZÃO CLERICAL

SETEMBRO/OUTUBRO - 1997


O protagonismo dos leigos, apregoado na Conferência do Episcopado latino-americano em Santo Domingo, desloca o lugar do leigo para o centro da comunidade cristã. O leigo, por isto, não é menos responsável pela reta vivência e interpretação da mensagem cristã do que o clero e suas hierarquias. E como os leigos, hoje em dia, muitas vezes entendem melhor os problemas da vida real, familiar, política, econômica e científica, do que o clero, os dirigentes eclesiásticos deveriam mais vezes desconfiar da própria ingenuidade e infantilismo, quando buscam impor autoritariamente o seu ponto de vista a reconhecidos profissionais cristãos nas comunidades. Muitos leigos já não são tão leigos que não sejam capazes de questionar supostos poderes arbitrários que o Direito Canônico permitiria a certos hierarcas da Igreja.

Há anos, os cristãos leigos da comunidade de Boa Viagem/Recife exercem uma ação profética de denúncia contra certas atitudes anti-cristãs derivadas do poder eclesiástico, na Diocese de Olinda e Recife. Qual seria a obrigatória atitude evangélica clerical frente a conflitos comunitários?

Correr atrás de fofocas malsãs, ou escutar as razões e as desrazões das diversas partes? Quando o poder eclesiástico de Olinda e Recife dialogou exaustivamente com os leigos da diocese? Desrespeitosamente discriminam-se uns e outros, proibindo-lhes uma participação plena na vida de suas comunidades. Com bases em quê? Em fofocas, em preconceitos?

Seria bom que alguns hierarcas se questionassem mais se seu cristianismo é o cristianismo dos evangelhos, ou qualquer outra coisa. Para isto bastaria usar o Dom mais precioso que Deus legou à humanidade: a razão. Com este Dom Deus brindou a todos os homens. Dele participam leigos e clérigos. Seu uso permite que os leigos sejam protagonistas da evangelização, às vezes até apesar da hierarquia.

Alguns acontecimentos na Igreja de Olinda e Recife, na última década, soariam aos ouvidos de muitos leigos cultos e engajados como piada, se não fossem trágicos. Será que a razão está inibida no centro do poder eclesiástico romano? Protagonismo dos leigos também significa denunciar as desrazões anti-cristãs de hierarcas, para o bem e a credibilidade de nossa Igreja Católica e Apostólica. O profetismo da denúncia, certamente, um dia despertará a razão da hierarquia romana da Igreja.


O CARISMA DE Pe. MARCELO ROSSI

DEZEMBRO - 1998


O Pe. Marcelo Rossi tem o Dom, de "shoman", de "garoto-propaganda". E tem a presença marcante na mídia, com suas canções de cunho religioso. Jovens balançam seu corpo ao ritmo de suas músicas. É ótimo que líderes religiosos saibam usar os meios de comunicação e a arte como pedagogia para transmitir valores cristãos aos homens d ehoje. Até aqui, tudo bem. Mas, na ação do Pe. Rossi há algo teologicamente intrigante: transforma a missa em show, e abusa de símbolos místicos da Igreja Católica, utilizando-os como enfeite deste show. Nada contra que o Pe. Marcelo dance, pule e cante com "agito" nos programas de Xuxa, Gugu e Faustão, usando as fantasia que bem entender. Mas que fique pulando, chutando e se retorcendo, adoidadamente, paramentado para a missa, é ridículo. Além disto, derramar água benta, aos baldes, por cima dos fiéis é um abuso intolerável. Água benta é um símbolo místico do nosso batismo, e não um fetiche mágico que "enxota demônios como água fervente enxota cachorros".

A missa é uma celebração mística e um sacrifício sagrado em memória da última ceia, e da mensagem deste testamento de Jesus antes de sua morte e ressurreição. E, como Jesus celebrou esta Ceia? Recolhido com seus Apóstolos, no Cenáculo, cumpriu a tradição pascal dos judeus, plenificando esta tradição e inovando a tradição cristã de sua presença, para todos os tempos, sob as espécies de pão e de vinho. A 1ª Missa foi celebrada, pelo próprio Jesus, com muito recolhimento, sem muitas palavras, sem alarde, num ambiente de muita espiritualidade e mistério; com a confirmação de toda a mensagem profética da inspiração bíblica. E o que faz o Pe. Marcelo Rossi? Transforma a celebração deste mistério num show superficial, sem profundidade, sem uma mensagem de justiça social. Onde está a mensagem de convivência fraterna que os primeiros cristão aprenderam dos Apóstolos? Que força de transformação social e humanitária as pregações do Pe. Rossi despertam? Nenhuma.

Nada contra grupos de dança litúrgica, como exemplo, existem na paróquia da Mustardinha/Recife, e em muitas outras partes.

Até é muito recomendável que existam estes grupos litúrgicos inculturados em todas as pa’roquias. Pois a arte, a música, as danças e as expressões corporais podem causar enlevo esperitual. Mas o "agito" do Pe. Rossi nas missas não combina nem com a tradição litúrgica, nem com a teologia da Igreja Católica. Penso que o bispo do Pe. Rossi faria bem se, diplomaticamente, lhe desse tempo para que fosse estudar um pouco mais de teologia e liturgia. Bom lugar para isto seria a Universidade Gregoriana de Roma. Este estudo talvez amadurecesse um pouco mais o jovem Pe. Marcelo, para o bem de seu apostolador da Igreja como um todo.


A LÍNGUA GREGA E OS EVANGELHOS

JUNHO/JULHO - 1999


Nos sermões os pregadores deveriam, medida do possível, envolver a mensagem de seus sermões com uma linguagem que fosse científica e racionalmente aceitável. Assim, a pregação ganha em credibilidade. Afinal, hoje, nem todos os fiéis são leigos (ignorantes). Infelizmente, muitas vezes, temos que ouvir, de certos padres, afirmações levianas, superficiais e, inclusive falsas. Talvez pensem que, por serem padres, podem dizer qualquer besteira.

Em época de Natal, ouvi um sermão em que o pregador descreveu o frio de Belém, afirmando que os pastores, mesmo com 20 graus abaixo de zero, foram reverenciar o menino Jesus. Talvez este padre, vivendo em região quente, não saiba muito bem o que é frio. Mas um pouco de geografia deveria ter aprendido.

Em 27.06.99, num sermão na Paróquia de Boa Viagem (Recife), mais um pregador se aventurou a afirmar besteiras. Baseou todo o seu argumento na afirmação categórica de que Mateus escreveu o seu Evangelho em hebraico, enquanto os outros evangelistas teriam escrito em língua grega. Isto não é verdade. Hoje os pesquisadores são unânimes em afirmar que o nosso Evangelho, segundo Mateus, atribuído desde os inícios da Igreja ao Apóstolo Mateus, também foi escrito em grego. Mesmo que Papias, o testemunho mais antigo sobre Mateus, tenha afirmado que Mateus escreveu os seus "logia" (ditos) em hebraico, é hoje convicção unânime dos exegetas que estes "logia" não são o nosso Evangelho segundo Mateus.

Penso que os cristãos de hoje têm o direito de exigir de seus pastores mais seriedade em seus sermões. A mensagem perde seu valor quando envolvida por uma linguagem que revela falta de rigorosidade científica, racional e cultural.

O bom pregador do Evangelho precisa de uma atualização constante. Por isto, saibam padres e pastores, que os leigos exigem dos pregadores que estudem e se atualizem constantemente. Do contrário os seus sermões se tornam insuportáveis e perdem o seu latim.


PERDÃO OU HISTOTERAPIA

ABRIL/2000


Logo após a derrocada do apartheid na África do Sul foram instituídas as "comissões da verdade", pelas quais deveriam ser trazidas à consciência dos cidadãos, e registrados na história, as atrocidades dos racistas sul-africanos. Era convicção dos negros e dos brancos, desejosos de superar o racismo, que os crimes do racismo não deveriam ser esquecidos. Até poderiam ser anistiados, mas não "varridos debaixo do tapete", como se diz.

Uma verdadeira paz só se constrói sobre o princípio bíblico, em que se afirma que unicamente a verdade nos liberta.

Neste ano 2000 a Igreja resolveu descer até os porões de sua história e levantar o tapete sob o qual varrera muitos de seus degetos.

Auto-instituiu, por assim dizer, uma "comissão da verdade", para trazer à consciência os próprios pecados. Como representante da Igreja, o Papa pediu a Deus o perdão por algumas destas poeiras: a inquisição, a desunião dos cristãos, as cruzadas, a perseguição aos judeus, a evangelização pela espada... Não me parece, no entanto, que Deus vá perdoar tudo isto. A história já fossilizou estes fatos. Além do mais, a teologia ensina que os pecados só são perdoados quando as pessoas que os praticam ainda estão vivas. Por isto, o perdão teológico só poderia ser pedido por pecados que a Igreja está cometendo hoje, e em relação aos quais seus dirigentes prometessem a Deus nunca mais cometê-los. Neste sentido, certamente, muito pecado haveria que necessitasse de perdão. Mas, mesmo que, teologicamente, a palavra perdão seja usada um tanto equivocamente em relação aos pecados na história, contudo considero que o pedido de perdão do Papa era necessário e foi muito louvável e corajoso. Mas este gesto parece-me muito mais uma histoterapia do que uma questão de perdão. É muito bom que o cristianismo faça uma terapia histórica e expulse de seus porões os "monstros" de suas neuroses, ali instalados. É o mesmo processo do psico-terapeuta que liberta o cliente dos traumas de seu subcosnciente, trazendo-os à consciência. E que, uma vez assumidos conscientemente, aliviam a pessoa de suas neuroses. Oxalá, daqui para frente, a Igreja possase apresentar aos homens de coração puro e de alma limpa. Livre de cruzadas, de inquisições, de espadas, de abuso do poder e de arbitrariedades canônicas. Desejamos uma Igreja em que o poder é de serviço e o amor provém de Cristo.


Outra Igreja é possível

setembro/outubro-2002


De 19 a 22 de setembro de 2002 tive a honra de representar o Grupo Igreja Nova no "Encontro Internacional para a Renovação da Igreja Católica", na Universidade Carlos III, em Leganés/Madrid-Espanha. Este Encontro foi organizado pela corrente "Somos Igreja". Estiveram presentes neste encontro em Madrid mais de 500 cristãos católicos, representando 200 grupos e organizações de base, vindos de todas as partes da Espanha e de mais de 30 países do mundo inteiro. Do Brasil, tiveram presença marcante Dom Tomás Balduíno, bispo Presidente da Comissão Pastoral da Terra, além de Marcelo Barros, monge Beneditino de Goiás, colunista deste nosso Jornal Igreja Nova.

A expressão "Somos Igreja" nasceu na Áustria em 1995, como título de um manifesto, em que setores expressivos dos católicos da Áustria expressam seu descontentamento com o comportamento autoritário de seus bispos e do Vaticano, afastando a muitos católicos de suas comunidades. Em toda a Europa e em todo o continente americano se fizeram abaixo-assinados, apoiando o descontentamento dos católicos austríacos. Em 1995, Hans Küng apresentou o Manifesto em Madrid, num congresso da Associação de Teólogos João XXIII. Com a internacionalização do Manifesto, e com o apoio do grande número de abaixo-assinados recolhidos no mundo inteiro, constituíu-se em novembro de 1996, em Roma, o Movimento Internacional Somos Igreja (IMWAC = International Movement We are Church). No mundo hispano, em vez de "movimento" se fala em "Corrente Somos Igreja".

O que levou a tantos representantes de Grupos Católicos de Base ao Encontro em Madrid? Certamente estavam movidos por sua fé e pelo desejo de ver a Igreja de Cristo transformar-se verdadeiramente numa rede de comunidades a serviço da Humanidade. Especialmente dos milhões de pessoas empobrecidas e excluídas em todo o mundo. Todos os congressistas pudemos escutar como a Igreja nasce, cada dia, pelo poder do Espírito, nas novas comunidades pelo mundo afora. No documento final, os congressistas também assumiram a petição feita ao Papa em favor de um novo Concílio Ecumênico, com um processo conciliar participativo e corresponsável, já assinado por 35 bispos católicos, e que está recebendo milhões de assinaturas de apoio em todo o mundo. Neste Concílio a Igreja deveria tratar de todos os graves problemas que afetam a humanidade de hoje.

Como não conhecia muito o "Movimento Somos Igreja", alegrei-me em constatar que no mundo inteiro as sementes do Espírito continuam ativas. E este mesmo Espírito desperta no coração de muitos cristãos o desejo por uma nova primavera eclesial, com um novo Pentecostes. E se algo na Igreja atual não nos agrada, sabemos que "uma outra Igreja é possível", na qual todos "somos igreja".

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Para se informar melhor sobre a Corrente "Somos Igreja", consulte o site:

http://www.eurosur.org/SOMOS-IGLESIA


O Crime da Guerra

Janeiro-Fevereiro-2003


De acordo com a literatura apocalíptica, as quatro piores pragas da humanidade são: a guerra, a fome, a peste e a morte. Por isto, o maior esforço da civilização sempre foi superar os sofrimentos que acompanham estas pragas. Entre estas pragas, a mais terrível, certamente, é a guerra, pois ela sempre desencadeia, com maior intensidade, as outras três.

Ao final do século XX esperava-se, ansiosamente, que o século XXI fosse um século de paz, uma era de espiritualidade, de solidariedade, de tolerância. Confiava-se que a humanidade tivesse chegado a um nível de civilização em que resolvesse seus conflitos pelo diálogo, pela diplomacia, e não precisasse mais destroçar seus adversários com todo tipo de armas. Mas, o que vemos? Em menos de três anos deste novo século, violências e guerras explodindo em diversas partes da terra. A humanidade praticando crimes contra a humanidade. Por que a humanidade não consegue resolver seus conflitos, usando o que o homem possui de mais característico: a razão e a palavra? Esta questão está envolta em um certo mistério. Filósofos, juristas, políticos, teólogos e intelectuais de toda ordem já emitiram suas opiniões. Talvez um dia consigamos construir uma civilização de paz. Neste sentido, é interessante um livro, escrito em l870 pelo filósofo e jurista argentino Juan Bautista Alberdi, sobre "O Crime da Guerra". Se Alberdi tivesse sido europeu, provavelmente seu livro estaria entre os clássicos do Direito Internacional. Mas como era latino-americano, não teve o impacto merecido.

Alberdi, já no início de seu livro, condena o Direito Romano como culpado pelo que denomina de "direito da guerra". Para Alberdi não existe "direito de guerra", mas apenas "crime de guerra", pois toda guerra autoriza homicídios, saques, incêndios, devastações no maior grau possível. Se não ocorrerem tais fatos, a guerra não é guerra. Tudo isto é crime pelas leis de todas as nações civilizadas do mundo. E a guerra legitima tudo isto, transformando tais ações em atos honestos e legais. Por isto, em realidade, a guerra é o direito ao crime, um contrasenso espantoso e sacrílego, um verdadeiro sarcasmo à civilização. Mas isto se explica pela história, pois o direito dos povos, assumido pelo ocidente, é romano, assim como nossa civilização é romana. E o "direito das gentes" romano se confunde com o direito de conquista, resquício do cesarismo. Por isto, as verdadeiras democracias não se enganam, quando manifestam uma aversão instintiva a este cesarismo. É a antipatia da razão contra o uso da força, como princípio da autoridade.

Todo o livro de Alberdi é contra qualquer classe de guerra. Não admite, como Hugo Grócio, a guerra justa. Para Alberdi, o conceito de guerra justa é um contrasenso selvagem. Seria o mesmo que dizer: crime justo, crime santo, crime legal. Não existe guerra justa, porque não existe guerra com juízo. A guerra é a perda temporária do juízo.É a alienação mental, uma espécie de loucura ou monomania. Na guerra os homens nada fazem que não seja loucura, nada que não seja mau, feio, indigno do homem bom. O homem em guerra não merece a estima do homem em paz. Guerra civilizada não passa de um barbarismo equivalente a barbárie civilizada. Por isto, os melhores soldados para qualquer guerra seriam os marginais, os bárbaros, pois é impossível admitir que uma guerra possa ter fins civilizados. Muito lamentável, para Alberdi, é o fato de povos cristãos se envolverem em guerras. Pois, para ele, a guerra é um crime para a moral cristã. O cristão é uma pessoa de paz, ou não é cristão. Pois, desde que Cristo disse: "apresentai a outra face a quem vos bofeteia", a vitória mudou de natureza. Desde então, a glória não está mais do lado das armas, mas próxima aos mártires. E a paz já não resulta simplesmente dos tratados ou das leis internacionais, mas da disposição pacífica no interior de cada homem.

Alberdi está consciente de que não é simples abolir as guerras, por isto indica caminhos para reduzi-las. E um destes caminhos é retirar o poder de violência das mãos dos beligerantes, e entregá-lo à humanidade. É interessante este profetismo de Alberdi em 1870, pois ele propõe o que hoje se espera de qualquer declaração de guerra: que apenas possa ser autorizada pela ONU. O que justamente não aconteceu nesta guerra Estados Unidos/Inglaterra – Iraque. Se isto fosse respeitado, as guerras se purificariam de mil práticas, pois ninguém se aventuraria a voluntariosamente declarar guerra, pois seria considerado criminoso e responsável por qualquer injustiça que acontecesse durante o conflito. Para Alberdi, a única forma de diminuir as guerras é levar os "criminosos de guerra" aos tribunais internacionais. Pois, enquanto os principais atores dos crimes de guerra gozarem de impunidade, as guerras se repetirão. Concordando com Alberdi, esperamos que, depois da atual guerra, os tribunais internacionais tenham coragem de julgar os responsáveis pelos crimes que se estão cometendo.


DARWIN E A ESCRAVIDÃO

Março/abril - 2003


Quando se fala em Charles Darwin, lembramo-nos imediatamente da teoria da evolução, da sobrevivência do mais forte, da seleção natural. Darwin, no entanto, também era socialmente sensível. Após a sua viagem, de 1831-1836, publicou o relato que fez a bordo do Beagle, navio que o levou por cinco anos pelo Atlântico e pelo Pacífico. Este relato da "Viagem de um Naturalista ao redor do Mundo" foi publicado, pela primeira vez, em 1839 e teve, posteriormente, uma edição corrigida pelo próprio Darwin. Na viagem de ida, o Beagle encostou em Salvador da Bahia e no Rio de Janeiro. Na volta, aportou novamente em Salvador e, por causa de ventos contrários, entrou também no Porto do Recife. Em 19 de agosto de 1836 deixou definitivamente as costas brasileiras, rumo ao Cabo Verde. As considerações de Darwin sobre a escravidão no Brasil são relativas ao que observou no Rio de Janeiro, na viagem de ida, e, na viagem de retorno, quando permaneceu por alguns dias em Recife.

Quando Darwin deixou Londres, em dezembro de 1831, tinha apenas 22 anos de idade. Era um jovem curioso, sensível e crítico. No Rio de Janeiro, em abril de 1832, um inglês o convidou para visitar sua fazenda, afastada da cidade. Nesta viagem, Darwin observa a situação dos escravos, e presencia o suicídio de uma escrava negra, precipitando-se de um rochedo, quando estava para ser recapturada. Darwin também viu escravos recebendo chibatadas e serem marcados a ferro. Além disto, testemunhou também a desumanidade de um dono de escravos, que, por pura ganância, separou diversas famílias de escravos, arrancando esposas a maridos, filhos a pais, irmãos a irmãos, enviando-os ao mercado de escravos no Rio de Janeiro, para que fossem vendidos. Presenciou também a humilhação de um escravo, mais humilhado do que o mais miserável animal doméstico, que nem levantou a mão para se proteger de um golpe que lhe foi desferido no rosto. Em Recife, ao sair pelas ruas, Darwin declara que ouviu gritos de escravos sendo torturados nos fundos das casas. E confessa que, mesmo posteriormente quando já na Inglaterra, toda vez que ouvia gritos de alguma pessoa, se lembrava dos gritos dos escravos sendo torturados no Brasil.

Quando Darwin deixa o Porto do Recife, relata que dá graças a Deus por poder deixar as costas brasileiras, e espera nunca mais precisar voltar ao Brasil, enquanto ali perdurasse o sistema de escravidão.

No seu livro "Viagem de um naturalista ao redor do mundo", Darwin também escreve que, em conversas no Rio de Janeiro, ouviu "pessoas de bem" afirmarem que a escravidão era um mal tolerável. Estas pessoas diziam-lhe que perguntasse aos próprios escravos, em suas casas, como se sentiam. Darwin observa que, evidentemente, nenhum escravo era tão burro para criticar os seus donos. Pois, mais dia menos dia o patrão chegaria a saber, e o resultado seria a chibata. Darwin se mostra escandalizado com estes "escravocratas de bem", pessoas que todos os dias rezavam a Deus, pedindo-Lhe que se fizesse Sua vontade na terra como no céu. A consideração da escravidão, como mal tolerável, só podia provir de elites que nunca haviam entrado nas senzalas e observado a vida miserável e de humilhação nestes ambientes. E Darwin adverte, primordialmente como naturalista, que a tortura e a humilhação dos escravos também tinha o seu limite. Pois, até mesmo os animais mais domesticados, quando torturados e humilhados, se tornavam violentos. Sinais de reação já se podiam observar, quando muitos donos de escravos demonstravam um grande medo, temendo vinganças destes homens rebaixados a condições inferiores às dos animais.

Assim, Darwin deixou as costas brasileiras, declarando que, objetivamente, não gostava do Brasil, por causa do regime de escravidão. Claro, entretanto, a história caminhou mais 165 anos. Mas, o que diria Darwin hoje das condições sociais do Brasil? Das dezenas de milhares de pessoas ainda hoje trabalhando em regime de escravidão? Será que muitas das violências que, todos os dias, nos assustam e escandalizam não são reflexo das sombras do regime de escravidão, que humilhou, durante séculos, a maioria da população trabalhadora no Brasil? Talvez, a observação de Darwin, de que até os animais domésticos se tornam violentos, quando torturados, fosse um dos pontos de partida para analisar algumas das manifestações de violência no Brasil de hoje.


Conferência Sobre o Cristianismo na

 América-Latina e no Caribe 

Setembro/Outubro-03


Depois do Concílio Vaticano II (1963-1965), realizaram-se três Conferências fundamentais para o caminhar cristão na América Latina: Medellín, Puebla e Santo Domingo. Nestas três Conferências, os bispos da América Latina, assessorados por teólogos e peritos, formularam diretrizes para uma nova evangelização no Continente latino-americano. Inclusive, afirmando que os leigos seriam os principais protagonistas desta nova evangelização. Tendo já passado uma década, desde a Conferência de Santo Domingo, esperava-se que fosse convocada uma nova Conferência pelos dirigentes católicos. Mas, no momento, a maioria dos cardeais latino-americanos se caracteriza predominantemente por seu conservadorismo e subserviência à Cúria Romana, inibidora da pastoral do Vaticano II. E, com medo de que uma nova Conferência dos bispos latino-americanos pudesse despertar inovações no cristianismo deste Continente, se opuseram a um novo Medellín ou Santo Domingo.

Mas, o Espírito Santo não dorme. E este Espírito inspirou grupos de cristãos organizados a patrocinarem um evento, que pudesse detectar desafios e propor ações cristãs para o momento de hoje da Igreja latino-americana e caribenha. Assim, o Grupo Ameríndia, em 2001, tomou a iniciativa de convidar algumas instituições: CEHILA/Brasil, CESEP, SOTER, PUC-SP, para se incorporarem ao projeto de uma grande conferência, no âmbito latino-americano e caribenho, para fazer um diagnóstico da situação da América Latina e Caribe e dos seus desafios mais urgentes, e um balanço crítico da caminhada do cristianismo no Continente. Foi esta programada Conferência que aconteceu na PUC-SP, de 28 de julho a 1o. de agosto de 2003. Esta Conferência foi uma grande celebração do que os cristãos fizeram, fazem e pretendem fazer na América Latina. Teólogos, cientistas das religiões, cientistas sociais e de áreas afins fizeram uma análise da situação econômica, política, cultural e religiosa da América Latina e Caribe. Com certeza, os cerca de 800 participantes nesta Conferência, muitos deles com posições-chaves em suas atividades, levaram novas luzes para o exercício de seu protagonismo evangelizador, neste importante momento histórico do Continente latino-americano e do Caribe.


Pérolas Carismáticas 

Janeiro/Fevereiro-2004


Inácio Striedre

Em 24 e 25 de janeiro/04 a Renovação Carismática se encontrou no Centro de Convenções de Pernambuco. Compareceram, inclusive, líderes nacionais. Neste Encontro também participaram alguns estudantes da UFPE, que ficaram estarrecidos com o que ouviram. Propostas que, perante o processo civilizatório iniciado com a mensagem de Jesus, são heréticas, alienantes e obscurantistas. E o obscurantismo sempre é rebaixante e perigoso para quem nele se envolve. Por isto, seria bom que os Senhores Bispos  esclarecidos da Igreja Católica no Brasil começassem a se preocupar com a espiritualidade, que certos supostos líderes carismáticos incutem em católicos ingênuos, aliciados por este movimento. Por exemplo, propor que "a opção por Deus exclui a opção pelo mundo" (ou Deus, ou o mundo!) cheira a heresia. A sã teologia da Igreja Católica, em sua história de 2.000 anos, sempre ensinou que o mundo é criação de Deus, e não do diabo. O mundo é o lugar e a oportunidade em que podemos demonstrar a nossa fé. O "mundo", o nosso corpo, a realidade material foi todo ele criado por Deus, e não por um espírito mau. Zoroastrismos e maniqueísmos nunca foram aceitos na Igreja de Cristo.

Outra pérola carismática: a filosofia e a teologia são prejudiciais e desnecessárias para a Renovação Carismática. Propor isto é ir contra toda a tradição da Igreja e desprezar até os ensinamentos do atual Papa, expostos em sua encíclica "Fé e Razão". Declarar que a Renovação carismática não dialoga com a ciência é outro obscurantismo, que a Igreja, com suas academias científicas e inúmeras universidades jamais propôs. Inclusive  tal proposta de atitude é  totalmente contra o ensinamento do Apóstolo Paulo no primeiro capítulo de sua Carta aos Romanos, quando nos ensina que a invisibilidade de Deus se pode tornar visível a nós através do mundo visível. Isto é, quando nos dedicarmos a descobrir e pesquisar as maravilhas da natureza. Só assim os nossos olhos se abrirão a grandiosidade e unicidade de nosso imenso e maravilhoso Deus. Outra espiritualidade levará à adoração de ídolos e a fanatismos obscurantistas.